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Corpus Christi com o grupo Aliança da Misericórdia

O texto desta postagem está destacado abaixo porque antes do GNR ser o Games and Reading, era o blog pessoal do escritor e jornalista Gunnar Santos. Ele criou o blog em 2.013 quando ainda estava no Ensino Médio, publicando textos críticos que hoje podem não refletir mais sua opinião tendo em vista que a maioria deles foi escrita quando Gunnar tinha 17 anos.

As postagens destacadas, como essa, são apenas os de caráter crítico e político escritos naquele momento e, portanto, não representam qualquer posicionamento, opinião ou pensamento tanto do GNR como do próprio Gunnar. Decidimos mantê-los aqui porque sempre fez parte do blog e, indiretamente, da história do GNR.

Em contrapartida, as antigas publicações literárias não fazem parte dessa classe e não carregam esse aviso.

A comunidade católica que se mantém apenas por doações, não passa necessidades e nem sofre com infraestrutura.

No último dia 30, tive o prazer de passar o feriado de Corpus Christi junto a um grupo católico de missionários. Passei, então, a ver a religião de um jeito que jamais imaginaria, sendo minhas suposições totalmente enganosas a respeito do caráter, do comportamento e das atitudes dos componentes da comunidade.

O grupo Aliança da Misericórdia, doravante chamado apenas de Aliança, é uma comunidade composta por todas as classes de pessoas, desde a criança até o ancião. Todos desenvolvem atividades voltadas à comunidade e lá descobrem as suas vocações.

Tratam-se de pessoas que tomaram uma decisão bem radical porque todas elas vivem nas dependências da comunidade. Todos são missionários e dedicam todos os finais de semana para tal ação, indo para localizações diversas para pregar o evangelho e anunciar Deus, não divulgando nenhuma igreja específica e deixando a critério do convertido decidir qual denominação seguirá.

Durante os outros dias da semana, fazem coisas internas, e todos os dias os menores dispõem de duas horas de estudo. Apenas destaco esse espaço porque foi a forma como os conheci. São adolescentes comunitários, mas frequentam escola externa. Ano passado, quando eu me transferi para tal escola, tive o ano letivo apenas com três alunos da Aliança. Este ano, 2.013, a coordenação da escola optou por colocá-los todos em uma só classe, justamente a minha. No total são seis alunos da Aliança, e por serem um grupo aberto, despertei curiosidade.

Os seis são inteligentes, espontâneos e muito amigáveis. Foi de forma natural que me aproximei de um deles e, juntos, começamos a conversar. Logo vieram outros da Aliança para integrar a conversa mostrando-se extremamente atenciosos. Pelo fato de eu ser protestante, gostei das conversas que tinha com eles, porque mesmo sendo eles católicos, disponham de uma linguagem simpática e totalmente inofensiva.

Eu pensava que quando eles chegavam à comunidade, ficavam todos sérios e dedicados à adoração, falando baixo e com um dia bem tranquilo a admirar e conviver com a natureza, e praticamente voando. Quando disse isso, Jhonatan, também da minha classe, disse: "Não voamos hoje porque nossas asas estão na lavanderia". Isso já deixa claro o bom clima que eles tinham.

Dom Bosco é o grupo dentro da Aliança integrado apenas por menores. Foi criado em 2.009 por adolescentes que mesmo menores tinham decidido se entregar à vida comunitária. Sendo assim, todos aqueles adolescentes haviam decidido se desligarem de seus pais para viverem na comunidade. É realmente bem radical.

Como se tratava de Corpus Christi, eles iriam para a Praça da Sé, na Catedral. Eu já gosto do centro de São Paulo e não perdi tempo. Detalhe: todos iriam de transporte público. Quando me falaram isso, eu já até imaginei todos sentados, completamente quietos e alguns até rezando. Nada disso, querido. Todos entraram e começaram a preencher o ônibus a partir do "fundão". Quando o ônibus saiu, começaram todos a conversar, alguns ficaram em pé, outros sentados na escada da porta de saída... Totalmente diferente. No fundo, as meninas (claro, as responsáveis pela faladeira já que qualquer mulher fala demais) riam e até cantavam hinos de adoração! Pareciam jovens indo para um shopping.

Fui em pé, ao lado do Jhonatan, referido acima. Ele me foi explicando alguns dogmas do catolicismo e sobre o funcionamento da comunidade. Ele disse que namorou uma garota durante um ano e seis meses, porém abriu mão de tal vínculo para entrar na Aliança. Sentia o prazer na vida comunitária e na necessidade de pregar o evangelho. Ele me explicou que aos 18 anos, a pessoa pode decidir se deseja continuar na Aliança ou voltar para a casa dos pais e seguir a vida, fazendo apenas visitas regulares à comunidade. Perguntei qual seria o desejo dele, e obtive a resposta de que está em dúvida entre o caminho matrimonial ou a clausura. São caminhos totalmente diferentes. Mas não é só ele que pensa assim, são muitos outros que realmente amam a vida comunitária. São tão íntimos à vida, que todos chamam a comunidade de suas casas.

Eu havia pago o ônibus com dinheiro e tinha que recarregar o Bilhete Único lá no Centro. Quando todos chegaram, fomos até a catedral da Sé. Haveria uma missa, seguida da Eucaristia (Santa Ceia) e uma procissão com bênçãos no Pátio do Colégio, na catedral de São Bento, na ponte Santa Efigênia e a bênção final na Catedral da Santa Efigênia. Logo no começo da missa, pedi licença para me ausentar dizendo que iria carregar meu Bilhete Único. Jhonatan não quis me deixar sozinho.

Eu disse que ele perderia parte da missa e que eu conhecia muito bem o Centro de São Paulo, o que não deixa de ser verdade. Porém ele disse: "Não, eu vou com você". Fiquei contente com o companheirismo dele, e então fomos nós dois pelas ruas vazias de São Paulo, enquanto eu ia lhe explicando sobre a história da cidade. Resolvemos tudo e voltamos para a Catedral. Fiquei junto com a Aliança, mas não segui os rituais dos católicos justamente por ser protestante. Fizemos a procissão e após a bênção final na Santa Efigênia, fomos ao ponto final de ônibus para voltarmos à comunidade.

O trajeto foi marcado por eles me explicando mais sobre a vida deles e eu sobre a religião protestante. Chegamos, almoçamos e fomos sabe para onde? Não, não fomos rezar, nem adorar. Fomos todos para um salão para fazer jogos, brincadeiras e nos divertir! Eu jamais havia imaginado que fossem assim.

Mas o tempo não para e tive que ir embora. O mesmo Jhonatan me guiou até a saída e, quando nos despedimos, ele não voltou logo: ficou esperando eu sumir do alcance de sua visão. Foi uma experiência maravilhosa, e saí de lá decidido a voltar outro dia com mais tempo para fazer uma reportagem completa e compartilhar com todos como é a vida em uma comunidade religiosa que se mantém através de doações e ninguém passa necessidades. Fiquem com as fotos do evento na cidade (clique para ampliar).














Monges de São Bento cantando na entrada da capela



Vista do viaduto de Santa Efigênia



Fim do percurso, na Catedral de Santa Efigênia em frente ao hotel São Paulo Inn.

Catedral de Santa Efigênia - Fim da Procissão


Ministração em frente a Catedral da Sé.


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