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Linguagem da Literatura Contemporânea - Vamos comentar um pouquinho

O texto da postagem está destacado abaixo porque este blog foi criado em 2.012, quando Gunnar Santos tinha apenas 16 anos. Ele publicava aqui conteúdo de Política devido a sua vontade em seguir o Jornalismo Político.

Os textos que contêm tal destaque, como este, são apenas os de caráter crítico e político escritos naquele momento e, portanto, não representam qualquer posicionamento, opinião ou pensamento tanto da GNR como do próprio Gunnar. A decisão de mantê-los aqui se deu pelo fato de que faz parte da história do conteúdo produzido por ele. No entanto, para evitar interpretações equivocadas, se fez necessária a adição desta nota.

Em contrapartida, as antigas publicações literárias não fazem parte dessa classe e não carregam esse aviso.

- Grupo GNR.

"tipo assim"
"câncer nas bolas"
"SAAAAAAACO"
"todo mundo começava a falar de uma vez e aquilo virava uma punheta só"
"meteu o pé no acelerador"
"mas aí"
"ele tinha acabado de fechar o site de pornografia, lavado as mãos e teve uma ideia interessante pra tentar comer mulher"
"Ô DIABO CARO"
"Afffff"

Estamos no período da Literatura Contemporânea! Não vivemos mais aquela época do Romantismo ou dos versos decassílabos ou alexandrinos. A musicalidade nos versos não tem sentido algum para nós. Usamos "pra" ao invés de "para", "você" ao invés de "vossa senhoria" e "cê" ao invés de "você" para os mais íntimos. "Twitter" não é nenhuma expressão bizarra em um livro assim como "- Solicito que vossa senhoria perdoe a ignorância proferia a ti através de minhas moribundas pronúncias" é comum no Romantismo.

Essas vulgaridades são uma característica de nossa geração que deve ser marcada ou é politicamente incorreto e devem ser combatidas?


Me peguei pensando nisso depois que li Não Faz Sentido - Felipe Neto e o comparei a Amor de Perdição - Camilo Castelo Branco no sentido de linguagem. Não costumo falar de Amor de Perdição porque é um clássico, considerado um Romeu e Julieta português e é meu pai na Literatura (se você não sabe o que significa essa expressão, saiba que ela não é usada nos livros clássicos, então corra pra lá, vovô).

Esses parênteses são contemporâneos.

A formalidade excessiva e a gramática rigidamente cumprida eram características dos livros clássicos. É o caso de Amor de Perdição, Frankenstein (resenha) e provavelmente Drácula - Bram Stoker, que lerei em breve para comprovar o fato e também porque é um clássico literário junto com Frankenstein.

Mas devemos notar que as coisas daquela época que são entendidas agora como "frescuras" eram tradições familiares e modelos de sociedade. Em Amor de Perdição, vemos que um homem andando com uma mulher ao lado era escândalo, pois homens não tinham amigas e sim esposas. Se um homem entrasse no quarto de uma mulher era visto quase como se tivesse desposado-a. Essas atitudes eram relatadas nos livros porque eram características daquela época.

Não precisamos ir muito longe à época. A novela O Cravo e a Rosa, Rede Globo, mostra um pouco essa cultura de uma época nem tão antiga. Vemos Bianca e Heitor: dois personagens apaixonados que não podem se casar devido a irmã mais velha de Bianca ainda ser solteira. Heitor não pode visitar o quarto de Bianca se não houver motivo aparente ou se estiverem sozinhos. Os dois não saíam em público porque seria um escândalo. Eles só conversavam se fosse na casa de Bianca (já que se a donzela fosse na casa do mocinho era tida como prostituta) ou no quintal, escondidos.

É ridículo? Para nós. Só que a sociedade daquela época adotava fortemente essas tradições. O mais ridículo, então, era uma mulher divorciada que era vista como prostituta. Til - José de Alencar, que também é do Romantismo, possui as mesmas regras.

Era assim a sociedade da época. Mas a nossa sociedade, século XXI, é totalmente diferente e não carrega nenhum desses costumes. Então a Literatura Contemporânea, daqui a cem anos, será matéria de ensino fundamental que estudará as formas de expressões e de cotidiano. Assim sendo, se você é contra expressões atuais e as julga de baixo calão, saiba que serão estudadas futuramente e que serão exigidas em provas e vestibulares. Por que é que os livros contemporâneos não podem retratar nossa sociedade como ela é?

Não é escandaloso. É mímese. É Literatura. Felipe Neto colocou palavrões no seu livro porque o povo fala palavrão. José de Alencar colocou "vosmecê" porque o povo de sua época falava vosmecê. Gírias devem abundar nos livros atuais para não ficar aquela coisa robótica como são as dublagens hoje.

Novamente falando do Não Faz Sentido, o capítulo 4 é intitulado "Puta merda, eu virei modinha". Se você acha isso agressivo, provavelmente queria que o título fosse:

"Virgem Maria, tornei-me assunto espontâneo e precoce"

É, mas quem diabos fala desse jeito?! Nossa sociedade fala palavrão e não devemos esconder essa realidade porque é realidade! Então, meu amigo, devemos sim aprovar essas gírias porque é assim nossa realidade.

A Culpa É Das Estrelas - John Green é totalmente contemporâneo. A linguagem e totalmente atual. Ligue os pontos se quiser entender o que eu quis dizer. Ainda não terminei o livro, mas quando fizer a resenha irei abordar esse assunto.

8 comentários :

  1. Gunnar, nao concordo totalmente com o que você falou não.
    Claro que acho que os lirvros devem deixar o padrão classico e gramaticalmente complexo de lado, no entanto, livros com muito gerundismos, girias e abreviaçoes (já q essa é a linguagem atual), sao ainda mais cansativos. Já li um livro que a autora escrevia só: cê vai, vambora, putz, entre outros, e isso me deixou até estressada com o enredo. Afinal, pra mim, livro é algo mais sério q uma conversa no facebook, portanto, deve ser escrita com a msm preocupaçao e seriedade com que os autores clássicos escreviam, nao precisando, entretanto, do "vossa senhoria" e semelhantes kkk
    enfim, minha opiniao é: nao é preciso ser rigorosamente formal na linguagem, mas também nao precisa banalizar o livro com um linguagem inteiramente coloquial.
    beijos
    http://nolimitedaleitura.blogspot.com.br/

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  2. Mas a sua opinião é exatamente a minha, KK. Você deve ter entendido errado. A linguagem contemporânea que eu me refiro que deve predominar nos livros é aquilo que nós falamos. "Vambora" e "putz" não existem, então se trata de um português meio vulgar. O que me refiro é que é bem melhor (e mais fluído) da seguinte forma:

    "Mãe, cadê minha blusa?"

    Ao invés de

    "Madre, viste o meu casaco de lã a que pretendo utilizar neste dia invernoso?"

    Fica até chato, entende?

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  3. Antes de mais nada, parabéns pelo post. Foi realmente uma lição, contudo, devo discordar da opinião, tanto da Camila quanto de você, Gullar. A língua é algo muito complexo, e as pessoas erroneamente pensam que ela é estanque, tanto que não aceitam seu natural fenômeno de mudança. O fato é que, sim, as expressões se renovam a cada geração e, da mesma maneira, a forma de construção das palavras também. Assim como o 'vosmecê' virou' você', o que a sociedade brasileira considera hoje como "certo", não há alternativa, nossos filhos e/ou netos escreverão um 'cê' que fará parte da ortografia padrão; nossos filhos e/ou netos terão opção de concordar ou não o sujeito com o verbo e o objeto; nossos filhos e/ou netos nem saberão direito o que é pronome oblíquo. É fato! A mudança linguística EXISTE, simplesmente porque nossa língua é viva, ela se movimenta e se renova.
    E porque diabos existe então a Gramática Tradicional? A Gramática Tradicional, ou Gramática Normativa, é uma simples descrição da dita variedade de prestígio, forma usada pelos falantes cultos da língua, ou pelo menos deveria ser, porque é ridículo tomarem como base escritores que viveram e atuaram em uma sociedade que está há séculos (e quilômetros) de distância de nós. Há INCONTÁVEIS outras variedades, que continuam sendo o português brasileiro, afinal, todos podemos nos comunicar sem problema algum.
    E o que é a ortografia? Convenção, apenas. Um bando de gente que não conhecemos estabelece que se escreve assim as palavras, e, devo dizer, sem critérios muito claros. Caso duvidem, parem para analisar. É claro que isso é necessário para que entendamos os textos escritos uns dos outros, mas é triste ver tantos recursos que utilizamos na fala perdidos em diálogos escritos só porque foi estabelecido que se deve escrever assim e ponto final.
    Enfim, gente, não culpo vocês de pensarem assim. A Camila, que conheço há teeempos, deve se lembrar de meus antigos textos, que transpareciam a exata concepção de língua que vocês possuem. Apesar de que nos últimos anos os estudos de linguística, mais especificadamente de sociolinguística (minha área de maior apreciação) tenham refeito o conceito de língua, a nossa sociedade ainda exige uma postura que se adéque aos padrões da classe dominante, o que interfere no que dizemos, escrevemos, vestimos,comemos etc.
    A verdade é que a riqueza de toda língua reside na capacidade de seus falantes se reinventarem, reside na capacidade de cada pessoa poder se expressar da maneira que a ocasião exige. TUDO, e quando digo "tudo" quero dizer realmente "TUDO", é contextual. Nós não falamos a nossa língua, nós SOMOS a nossa língua! E não é uma gramática arcaica, um dicionário e um país europeu, antigamente nosso colonizador, que fica a um oceano de distância de nós que serão capazes de trazer homogeneidade para nossa língua.
    Palavras de uma estudante de Letras – Português (ênfase em linguística/edição) da UFMG.
    Querem saber de onde tirei tudo isso? Poderia citar um mundo de linguistas da atualidade, brasileiros e estrangeiros, mas, já ouviram falar em Marcos Bagno? Seus livros, “Preconceito linguístico” e “A norma oculta”, mudaram minha vida e redirecionaram meus sonhos para o futuro...
    :)

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    1. Olá, Gih.

      Primeiramente quero lhe parabenizar pelo seu estudo de sociolinguística. Lhe desejo muita sorte no seus estudos e, por estudar em uma universidade federal, você terá um grande futuro.

      Eu não compreendi sua conclusão/opinião. No começo você disse que a língua se movimenta e se renova a cada geração, o que realmente é um fato. Em seguida você definiu a Gramática Tradicional e a Ortografia.

      Só que você disse algo que resumiu tudo e acredito ser essa a sua opinião: "Nós não falamos a nossa língua, nós SOMOS a nossa língua!"

      Entendi que a língua é definida por nós, que a falamos, escrevemos, entendemos e nos comunicamos. Concordo plenamente, já que a nossa língua existe porque antes nós existimos.

      Eu defendo um português formal, tanto que eu o utilizo ainda hoje. Aqui no blog quando falo de/com gírias utilizo aspas. Principalmente nas postagens de atualidades utilizo o português formal; Eu quero ser um Jornalista e, indiscutivelmente, trabalharei com esse português.

      Porém no caso da Literatura Contemporânea, os livros não devem vir com um "vambora", ou "issaê", mas "vamos lá" e "isso aí" sim. Porque Literatura é cultura e Literatura Contemporânea registra nossa cultura. Os livros clássicos utilizam "vosmecê" porque na era clássica as pessoas usavam. Hoje, usamos "você" e falamos "tipo assim", logo os livros devem conter essas expressões para que registrem nosso cotidiano, costumes e falas para estudo em uma era futura.

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    2. O que eu quis dizer, Gunnar, é que, por causa das variedades existentes em uma língua, há inúmeras maneiras de se dizer a mesma coisa, não sendo elas melhores do ponto de vista linguístico apenas por serem mais formais. "Cê" é sim - putz, suuuper é - uma palavra da língua portuguesa, "putz" também! kkkk Assim como "nóis", "véi", "vambora", "issaê" etc! Mas, como eu disse, é tudo contextual. Automaticamente nos adequamos às situações do dia a dia e mudamos nossa maneira de expressar de acordo com a ocasião. Por exemplo, não falamos com nossos amigos do mesmo jeito que falamos com nosso chefe, ou com o diretor de alguma instituição. Mas você acha mesmo que os termos, palavras e construções sintáticas que usamos para nos comunicar com "os chegado" são piores que os que usamos quando falamos com nosso chefe? É tudo português! E a riqueza da nossa língua tá aí! Não há como negar, nós somos nossa cultura, e ela usa essas palavras picadas (poxa, eu sou mineira! Tem jeito não!), une uma palavra com a outra, inventa mais um monte, joga tudo num saco e sacode de novo.
      Já atuei na área jornalística (não é minha praia, mas eu me saí bem...), sempre lidei e trabalhei com a norma padrão, mas ela nunca me dominou completamente. E eu nem queria que tivesse dominado! Adoro reconstruir a minha língua da minha maneira! Ela diz quem eu sou e quem eu posso ser na hora que eu quiser e, é claro, quando eu achar conveniente...
      Atualmente estou tentando adotar essas características que, absolutamente, nos identificam em diálogos de um dos meus livros. A narração está padronizada, porque, na hora de ler, isso ajuda, mas quero colocar cada um de meus personagens, que na história vêm de diferentes e distantes lugares, com jeitos de falar distintos. Tá difícil, confesso, mas não dá pra ignorar essa realidade e deixar toda esse mundo de possibilidades de lado. Quero que meus personagens sejam únicos não apenas por sua personalidade e características, quero que eles se definam também pelo jeito que falam, assim como nós, seres humanos de carne e osso.
      A época de falar só "você", usar pronomes oblíquos e concordar o sujeito com o verbo e o objeto já está passando... Hoje em dia isso é tudo opcional na língua falada, ou seja, não demora a ser opcional também na língua escrita. Portanto, faço de suas as minhas palavras, Gunnar: "os livros devem conter essas expressões para que registrem nosso cotidiano, costumes e falas para estudo em uma era futura"...

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    3. Gih,

      Então você concorda comigo sim, rs. Você disse exatamente o que eu disse na postagem, que toda essa linguagem deve ser considerada nos livros contemporâneos assim como você faz com as suas obras. Essa maneira de articular personagens vindo de regiões distintas através de suas palavras e jeitos de falar é extremamente importante. Isso vai caracterizar nossa geração para as futuras.

      Só que para "putz", "cê" etc, eu não concordo. Por mais que falemos assim, AINDA não são palavras do português. As pessoas falam "cê" pensando e querendo dizer "você" e enquanto isso ponderar, o "cê" eu considero incorreto. Hoje se aceita "você" no português porque as pessoas o falam pensando nele, e não em "vosmecê". Falam "putz" pensando no palavrão. A partir do momento em que essas pessoas falarem "cê" pensando na aplicação "cê" mesmo, aí sim será aceita no português e deverá conter nos livros.

      Mas reconheço que esse futuro é muito próximo. Quem sabe daqui a 15 anos.

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  4. Se pensarmos direito, é exatamente isso que vai acontecer. Pois nossa linguagem sempre esta se inovando, com novas pronuncias, etc... Mas vou dar o credito a Camila, eu não aguentaria ler algo que estivesse escrito 'cê'.
    Tá certo que esta nova maneira de falar e escrever é errado, porem o que você levantou Gunnar é a realidade, é o que vai acontecer daqui a uns bons anos(só espero que demore bastante, para não precisar ver isso.hahahahahahahahahahahahahahahahaha).
    A forma de você abordar este assunto é bem interessante, é algo para se pensar e discutir.

    Beijokas Ana Zuky

    Blog Sangue com Amor

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    1. Olá, Ana!

      Então, novamente, eu não acho certo o uso do "ce" porque isso não existe. É um fonema sim, mas ainda não existe na gramática, entendeu? A mesma coisa pra "putz", "aff"... Mas essas conjunções "tipo assim", "mas aí" e os palavrões eu acho certo sim porque se uma história se passa nos tempos atuais, ela deve registrar a forma com que nós falamos assim como os clássicos reproduzem o jeito "clássico" que se falava naquela época

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